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5.1.11

depois que ela saiu de casa


ela saiu de casa. passou pela porta, destrancou o portão e, na calçada, teve um problema real.
o cadeado enguiçou, não fechava, era uma pausa e ela não precisava de pausa.
os homens nunca têm pausas, nas pausas se pensa.
ela já havia, como disse, passado pela porta.
e agora?
ela não conseguia fechar o cadeado, a tranca, não conseguia trancar-se livre por fora.
ela estava presa? sim, num espaço depois da saída sem conseguir sair.
que merda de cadeado que a fazia parar e pensar.

o que ela precisava era perder-se. perder-se é fácil principalmente para os homens. perder-se sem controle. e ela queria, sobretudo havia a vontade, de perder-se.

pobre coitada. perder-se é fácil e sempre se é capaz de esquecer ou não encontrar o caminho de volta.
e se fechasse para sempre o cadeado prendendo-se em liberdade por fora?
perderia o lado de dentro, o retorno, a volta. ela não queria pensar nisso. 
ela queria simplesmente perder-se sem pensar.

o que ela precisava era de um amigo. porque amigo dá tudo o que um amor é capaz de dar, sem correr o risco de apegar-se ao prazer do corpo. mas ela não poderia correr o risco que se tem somente com amigos. não queria ouvir coisas que somente amigos são capazes de cometer.

ela chegou a pensar que melhor era ser amante. porque amante não tem outra possiblilidade.
amante tem somente o momento em que o outro pode, em que o outro quer, em que o outro precisa. o resto é espera. e esperar é estar em pausa e ela odeia pausas porque nas pausas se pensa, e os homens, como ela, não pensam nunca. seu verbo é agir. e sempre sem pensar, sem medir, sem sofrer. odeia sofrer.

o problema dos amantes é o depois. porque nada existe no depois até uma próxima vez sem datas.

ela queria ir somente. peito aberto em ponta de faca.
quede ela?
não está mais lá, do outro lado, na calçada. sim, fechou o cadeado, o portão. fez a opção? em ninguém porá a culpa. 

quede?
se perdeu?


2 comentários:

Tiago Castelo disse...

Não. Há sempre mais. Sim.
Não e Sim. Nenhum dos doi.
Os dois. Isso: os dois.

Paulo José disse...

os dois...